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Honra lhe seja merecidamente feita, Dico é sem dúvida um dos maiores resistentes da nossa praça e um verdadeiro desbravador de caminhos, no que respeita à literatura relacionada com o nosso mundo metálico. O autor apresenta-nos aqui a sua mais recente obra, o apaixonante  “Emigrantes, Imigrantes — Experiências de Vida no Universo Metálico Português (1989 – 2018)”

 

Depois das grandes aventuras que foram “A Portuguese Rock and Metal Route – The Underground Guide” e principalmente “Breve História do Metal Português”, como surgiu a ideia de escrever  “Emigrantes, Imigrantes — Experiências de Vida no Universo Metálico Português (1989 – 2018)”?

A ideia surgiu em junho de 2016, apenas três meses depois de ter publicado a edição revista e aumentada do Breve História do Metal Português. Estava a ver uma reportagem na televisão sobre a imensa crise migratória, que ainda perdura e só tem tendência para aumentar, e comecei a pensar que, historicamente, além de sermos um País de emigrantes, nas últimas décadas também nos tornámos um País de Imigrantes. Achei que seria interessante e totalmente original escrever sobre os músicos, jornalistas, produtores, etc. nacionais ligados ao Metal que emigraram e também o inverso, ou seja, estrangeiros ligados ao Metal que escolheram o nosso País para viver. Além de ser um pretexto para escrever outro livro sobre música (LOL), foi mais uma boa oportunidade para conjugar as minhas três paixões: Metal, jornalismo e Sociologia, porque, dado que o mundo é cada vez uma aldeia global, não faria o mínimo sentido escrever um livros destes sem fazer análise social, até porque os temas – emigração/imigração/migrações – são eminentemente sociais.

No fundo, o que me interessava saber era que termos de comparação faziam os entrevistados entre a sua vida no pais de origem e no país de acolhimento. Encontram-se melhor a nível social, de emprego e de remuneração? Estão pior? Foram bem ou mal recebidos? Têm maior ou menor oferta cultural? Inseriram-se perfeitamente na sociedade do país de acolhimento ou “guetizaram-se”, preferindo relacionar-se apenas com os seus compatriotas? De que aspetos gostavam menos e mais em ambos os países? Como vêm a ascenção do eleitorado e dos simpatizantes de extrema-direita, nomeadamente em países onde atualmente residem?  Que comparações fazem entre os cenários metálicos do país de origem e do país de acolhimento?

 

Como foi o processo de pesquisa para a produção do livro, e quanto tempo demoras-te para o escrever?

A primeira fase foi escolher as pessoas ligadas ao Metal que foram viver e trabalhar para outros países e vice-versa, contactá-las, etc. Não fiz qualquer diferenciação: encontras no livro desde grandes estrelas de Rock até músicos que se encontram num patamar bastante underground mas apresentam imenso valor. O meu objetivo era publicar 40 entrevistas, 20 de emigrantes e outras tantas de imigrantes, mas infelizmente os estrangeiros entrevistados acabaram apenas por ser 14. De qualquer forma, julgo que isso não afetou minimamente o propósito nem o conteúdo do livro.

Após encontrar as pessoas que iria entrevistar pesquisei bastante sobre estes fenómenos de mobilidade geográfica de pessoas e, obviamente, os casos específicos de cada entrevistado. Obtive respostas muito interessantes, umas sobre experiências realmente duras (como as dos extintos More Than a Thousand, em Londres), outras divertidas (como a do Rodrigo Leal, em Portugal), outras dramáticas (Marsten Bailey), outras em que o entrevistado senti claramente alguma desconfiança da sociedade de acolhimento (Mike Gaspar), etc.

 

Qual a expectativa que tens para esta tua nova obra?

Neste momento, quando publico um novo livro, lanço uma nova compilação ou inicio qualquer outro projeto, já não tenho quaisquer expectativas nem sequer ilusões. Relativamente aos livros, a única coisa que pretendo é não ter prejuízo, é vender o número de livros que me permita pagar a paginação e a impressão. se ficar “ela por ela”, já terei atingido o meu objetivo.

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Aquando do lançamento da “Breve História do Metal Português”, falávamos das dificuldades que havias encontrado para o poder editar. Depois de todas estas longas jornadas, como surgiu e qual o objectivo da Mega Talentos?

A empresa Mega talentos foi fundada por mim e pela minha mulher a 14 de agosto do ano passado e vem na sequência de todos estes trabalhos ao nível da escrita de livros, biografias, traduções, revisão e texto, consultoria editorial, etc. que eu já fazia enquanto free-lancer. Embora se designe Mega Talentos, o core-bussiness da empresa é a marca MegaMiúdos, que é um centro de estudos e atividades educativas para alunos do 1º ao 12º anos e até mesmo estudantes universitários. Mas em termos da Mega Talentos, o processo de trabalho e de publicação dos livros é exatamente o mesmo, a diferença é que agora funcionamos como editora e podemos colocar a chancela Mega Talentos nas nossas edições.

 

Para além de Portugal, apercebi-me de algum interesse nos teus trabalhos por parte de amantes do Metal e da música em geral lá fora. Existe a possibilidade de lançamentos noutros países, inclusive traduzidos para outras línguas?

Dado que a cena nacional é completamente ignorada por esse mundo fora (os fãs e os media conhecem os Moonspell, Heavenwood, Corpus Christii e, com sorte, mais algumas bandas), as propostas que fiz a todas as editoras estrangeiras para fazer edições em Inglês e Espanhol foram recusadas. Todas disseram que a ideia era muito interessante mas a cena metálica nacional era tão pequena e com uma influência mínima no cenário global, que não se justificava traduzir e editar o livro noutras línguas. Todavia, estou a realizar um projeto totalmente pensado para o mercado internacional. Vamos ver. Será algo a médio/longo prazo.

 

Um dos nomes incontornáveis do mundo do metal, é sem dúvida o lendário guitarrista dos Venom Inc. Jeff “Mantas” Dunn (que também prefaciou a obra). Ao mesmo tempo, é um dos grandes exemplos de músicos que adoptaram Portugal para viver. Como vês aqui a sua participação?

Vejo como sendo alguém super-acessível, imensamente disponível, simpático e sempre pronto a ajudar. Estive quatro semanas a chatear a Nuclear Blast para me proporcionarem uma entrevista com ele e a editora andou a gozar comigo, quer era na semana que vem, que iam, ver, blá-blá-. Típica conversa da treta até que um dia me chateei e contactei a banda diretamente através da sua página do Facebook. Cinco minutos depois de ter explicado a ideia no Messenger o Jeff respondeu-me. Em 20 minutos a entrevista estava feita (à época, ele encontrava-se em plena tour norte-americana). Eis a prova de que muitas editoras as só servem para complicar a vida às bandas, ao invés de as ajudarem.  Quando pensei em escolher uma pessoa para escrever o prefácio do livro lembrei-me logo dele, claro, dado que fora tão acessível e porreiro. No dia seguinte, a 3 dias de Venom Inc. atuarem em Tóquio, eu tinha o prefácio na mailbox. Se eu já tinha, naturalmente, um grande respeito pelo Mantas, por tudo o que fez com os Venom e na sequência dos mesmos, com estas atitudes fiquei mesmo a respeitar o homem.

 

Com décadas de experiência que tens no nosso mundo musical, achas que o preconceito ao Metal foi diminuindo ao longo dos anos, ou nem por isso?

Socialmente sim, internamente há imensos cancros em forma de “gente” que têm surgido e corroído a cena. Corruptos, promotores de discórdia, gente que apenas favorece os amiguinhos, bandalhos que apenas vivem à custa de cunhas…existem favorecimentos de toda a espécie, discriminação de projetos, invejas, ódios de estimação, filhos da puta investidos em criar mal-estar e em dividir a cena.  E estão a consegui-lo. Ou seja, o underground metálico nacional está podre, corroído, é um nojo, um antro de cobras venenosas que se boicotam umas às outras. O pessoal quer mesmo é foder o próximo e dizer mal dele. É triste, porque nunca tiveste tantas e tão boas bandas em Portugal, com um potencial gigantesco. Temos cá, atualmente, músicos de excelência e bandas que nada devem às estrangeiras.

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Dico, tive a oportunidade em confidenciar-te, que tocas-te num dos álbuns que mais ouvi na vida, e que muito me marcou, o Darkside, dos Sacred Sin. Passados estes anos, como olhas para o teu passado como músico dos próprios, bem como em Dinosaur? Ainda chateias os vizinhos com as tuas batidas, ou passaste o testemunho ao teu filhote?

É bom ouvir novamente essas palavras, obrigado, Carlos. Tanto nos Dinosaur como nos Sacred Sin estive no lugar certo à hora certa. As condições eram outras, poderia ter-se feito muito melhor em ambos os casos, mas falarei disso em pormenor na minha autobiografia musical, que estou a preparar. Mas de facto é bom perceber que o Darkside continua a ser considerado um clássico do Death Metal europeu, e as sucessivas reedições (remasterizadas, com extras, novos packagings, etc.) bem o demonstram. Fiquei bastante contente por me terem convidado a escrever as liner notes dessas reedições, bem como do vinil que reúne o EP The Shades Behind e a promo-tape.

 

Esta é muito importante, diz-me como os nossos ouvintes/leitores poderão chegar até às tuas obras. Onde encontrar, como encomendar? Ainda há exemplares disponíveis das edições anteriores?

Sim, ainda podem comprar quer o Breve História do Metal Português quer o Emigrantes, Imigrantes: Experiências de Vida no Universo Metálico Português (1989-2018), encomendado-os através dos mails emigmetal@gmail.com ou geral@megatalentos.pt Aproveito para aqui deixar o URL do site da empresa/editora, par quem tiver curiosidade de o consultar. http://megatalentos.pt/

 

Dico, é sempre um prazer e honra conversar contigo. Em nome do Templo do Rock, muito obrigado. Qual a mensagem final que gostarias de nos deixar?

Igualmente Carlos e muito obrigado por continuares a ser um resistente. Como mensagem final incentivo os leitores a criarem projetos (bandas, livros, webzines, zines, documentários, festivais, etc.). Deitem as mãos à obra. Ficar sentados no sofá sem fazer um caralho e depois criticar é fácil.

 

Por: Carlos Santos
(Templo do Rock)

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Foto: Carlos Santos e Dico