Por: Sara Novais | 

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Apesar da noite terrível de chuva e trovoada, os rockers nacionais, vindos de norte a sul do país, rumaram à Paradise Garage, em Lisboa, na noite de 25 de outubro, para testemunhar o regresso dos Harem Scarem a Portugal. Foi em 1993 que a banda se estreou fora do seu país e atuou entre nós, na mesma sala, que dava, na altura, pelo nome de Gartejo. Vinte anos depois, ainda se menciona essa noite com emoção, tal foi a empatia entre os canadianos – à época, no auge do sucesso – e o público português. Muita era a curiosidade para saber se o reencontro seria tão feliz.

Antes da sua subida ao palco, os nacionais PhaZer abriram o cartaz. O estilo praticado não é semelhante ao dos Harem Scarem, mas os PhaZer são experientes nestas andanças e aproveitaram, da melhor forma, a oportunidade de dar a conhecer o seu trabalho ao público que já ia enchendo a sala. A promoção da compilação PhaZer “Hard Case”, que será lançada no final de novembro, dominou o espetáculo, bem recebido pelos presents. O novo álbum de Gil Neto e companhia tem já edição agendada para o início do próximo ano.

Pouco passava das 22h00 quando os Harem Scarem deram um ar da sua graça, sem grande pompa ou aparato, de forma humilde mas muito comunicativa. Os Harem Scarem são uma daquelas bandas que mesmo os maiores  fãs têm dificuldade em encaixar num género, numa categoria ou em qualquer outro tipo de rótulo. Particam um hard rock que, por vezes, chega a ser progressivo, tal o grau técnico de execução e a complexidade da estrutura. Mas surpreendem-nos, frequentemente, com uma tal simplicidade contagiante que roça a pop mais mainstream. São incomparáveis na criação de melodias inesquecíveis, mas quem tentou chamar-lhes “baladeiros” nunca os viu em palco e desconhece a veia feroz de crítica social da banda, acentuada por um humor sarcástico que se tornou imagem de marca.

Uma coisa é certa: há muito tempo que os fãs portugueses não tinham uma noite tão consensual. Quando se disse que este era um dos concertos mais aguardados do ano, não era marketing… Os portugueses mostraram bem o que significa «saudade» e, orgulhosamente, provaram por que é que são conhecidos como um dos públicos mais participativos e marcantes dos palcos internacionais. Desde o primeiro momento, foi um concerto sem necessidade de aquecimento e sem quebras. O público cantou a plenos pulmões do primeiro ao último segundo, e a banda, visivelmente surpreendida e emocionada com a receção, respondeu com uma entrega singular, demonstrando toda a sua classe.

O tema “Saviors Never Cry” abriu a noite, ou não fosse esta a digressão que assinala os vinte anos do lançamento de “Mood Swings”, o segundo álbum de originais e, certamente, um dos grandes marcos da carreira dos Harem Scarem. Aliás, o álbum desfilou, na íntegra, ao longo do concerto, intercalado, também, por alguns dos sucessos do álbum homónimo de estreia (caso de “Hard to Love”, da grande balada “Honestly” ou de um excerto de “With a Little Love” – um mimo especial para os fãs portugueses, que não faz parte do alinhamento habitual da banda) e alguns temas selecionados da extensa discografia dos Harem Scarem.

Harry Hess (voz e guitarras) e Pete Lesperance (guitarras) são o núcleo duro da banda e integram os patamares cimeiros do ranking nos seus ofícios: Lesperance é, facilmente, um dos melhores guitarristas do mundo; Hess é senhor de uma voz inimitável e, juntos, nos Harem Scarem ou apoiando-se mutuamente nas respetivas carreiras a solo ou trabalhando em estúdio, o seu talento como compositores e produtores é amplamente reconhecido – das suas mãos, sairam, até, os discos dos vencedores da edição canadiana do programa “Ídolos”. O novo baixista, tímido mas competente, dá pelo nome de Stan Mizcek (ex-Honeymoon Suite, 24K). Mas a versão 2013 da banda ganha, em palco, indiscutivelmente, com o regresso do baterista Darren Smith, que havia saído no limiar do milénio. Dono de uma energia invejável, Smith conquistou os portugueses com a sua boa-disposição, aliando sempre os deveres na bateria com o apoio nas vozes, trazendo para o palco os intrincados arranjos melódicos que sempre nos deslumbraram. O baterista respondeu favoravelmente ao desafio e voltou, até, a assumir a função de vocalista principal no clássico “Sentimental Blvd.”, um momento sempre muito aplaudido pelo público.

Grande ovação, também, para o medley unppluged composto por “Jealousy”, “With a Little Love” e “Just Like I Planned”. Num alinhamento bem equilibrado entre o peso – acentuado pela roupagem 2013 dos temas, ligeiramente mais crua e atual – e a melodia, destaque ainda para o poderoso “Empty Promises” e para o fantástico instrumental “Mandy”, que permitiu a Pete Lesperance mostrar, mais uma vez,  por que é que os guitarristas o colocaram, há muito tempo, no panteão onde figuram nomes como Joe Satriani ou Steve Vai.

A noite passou demasiado depressa e a banda despediu-se (pela primeira vez) com “Had Enough”, mas, mal pisou fora do palco, os tradicionais hinos do público português exigiram o regresso já previsível, até porque o desfile dos temas de “Mood Swings” ainda não havia terminado. A banda reservou para o encore dois dos maiores sucessos do disco, o avassalador “No Justice” e “Change Comes Around”, concluíndo o set previsto e dando a noite por concluída. O que não estava nos planos era a reação dos fãs, que não se deram por satisfeitos e continuaram a pedir mais. Não há registo de isto ter acontecido em qualquer outro lugar, ao longo da digressão – nem no Festival Firefest, onde foram cabeças de cartaz – mas o que é certo é que os Harem Scaremvoltaram, mais uma vez, ao palco da Paradise Garage, decidindo-se por presentear a plateia com “So Blind”, do álbum de 1998 “Big Band Theory”.

Depois de várias semanas de digressão mundial em promoção de “Mood Swings II” (a regravação do álbum de 1993, com vários temas bónus e um DVD), acabada de chegar da Suíça e prestes a seguir para Madrid, a banda comprometeu-se a assinar tudo o que houvesse para assinar, a tirar fotografias e trocar dois dedos de conversa, prolongando, assim, por várias horas, uma noite, já de si, memorável. Ficou a promessa que todos queriam ouvir: “não vamos demorar outros 20 anos a regressar”. Cá estaremos para os fazer cumprir.

Alinhamento:

– Saviors Never Cry
– Dagger
– Hard to Love
– If There Was a Time
– Sentimental Blvd.
– Slowly Slipping Away
– Honestly
– Karma Cleansing
– Stranger Than Love
– Jealousy
– With a Little Love
– Just Like I Planned
– Empty Promises
– Mandy
– Had Enough

Encore:
– No Justice
– Change Comes Around

Encore II:
– So Blind

Fonte: http://palcoprincipal.sapo.pt/noticias/Noticia/harem_scarem_paradise_garage_uma_historia_de_amor_sem_fim_a_vista/00010184/all#news_content_conteiner